08/Jan/2024
Novidade no crédito rural em 2023, a linha dolarizada do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o agronegócio superou a expectativa do governo e do próprio setor produtivo. Dos R$ 4 bilhões disponíveis, R$ 3,2 bilhões haviam sido contratados até dezembro em 2 mil operações, sendo 98% para financiamentos de máquinas e equipamentos. Os números mostram o elevado apetite por crédito rural para investimentos em 2023. Já para 2024, o desempenho da linha dependerá das taxas de juros, em meio à provável manutenção do interesse do setor por investimento em bens de capital. O BNDES Crédito Rural em Dólar (com custo fixo em dólares americanos TFBD) lançado em abril de 2023, que opera desde maio, tem juros de 7,59% ao ano, acrescidos de variação cambial. Os prazos dos financiamentos vão de 24 a 120 meses, com carência de até 24 meses. Atualmente, a linha é voltada a operações de investimento, com possibilidade também de ser utilizada para alongamento de dívidas de cooperativas de regiões afetadas por intempéries climáticas.
A modalidade é restrita a produtores que operam com exportação e, portanto, tem uma espécie de hedge cambial natural. O BNDES capta os recursos no exterior e repassa aos bancos varejistas, que assumem os riscos das operações. Para o governo, a linha se mostrou uma alternativa bem-sucedida ao Plano Safra no financiamento de grandes produtores sem a demanda de recursos equalizáveis do Tesouro Nacional. A ideia do Ministério da Agricultura é que este tipo de financiamento funcione como uma espécie de "bolso adicional", sobretudo para os produtores de grande porte e que já possuem familiaridade com operações cambiais. Assessor especial do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, Carlos Ernesto Augustin defende que o endividamento em dólar é mais saudável financeiramente ao produtor em virtude de sua receita estar atrelada ao câmbio, pela exportação. Se o dólar cair, a receita cai, mas a dívida também cai. Esse financiamento veio mostrar ao agricultor que é mais seguro fazer dívida em dólar que em Real e sem custo ao Tesouro para produtos de exportação, que são 90% do agronegócio brasileiro.
Como o BNDES capta o recurso no exterior, não há problema de falta de verba, segundo Augustin, um dos idealizadores do financiamento. O BNDES já avalia a possibilidade de aportar recursos adicionais na linha dolarizada diante da previsão de consumo da cifra existente nos próximos meses. Pelo ritmo mensal de aprovações, na faixa de R$ 450 milhões, estima-se que em aproximadamente dois ou três meses os recursos estarão esgotados, o que comprova o sucesso da iniciativa. A demanda apontada pelo mercado continua se mantendo elevada. O BNDES apontou que a nova modalidade alavancou o financiamento ao agronegócio em um momento de retração de crédito. O objetivo é ampliar e diversificar alternativas de crédito a custos mais competitivos para esse segmento, intensivamente exportador. Na avaliação da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), a linha em dólar do BNDES veio para ficar e reduziu a pressão por recursos do Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota, principal linha de financiamento de máquinas).
O crédito dolarizado não irá substituir as linhas tradicionais, como o Moderfrota, mas sim uma diversificação de fonte para o nicho de produtores com operações em dólar. Apesar de ter um custo compatível com o atual nível de juros do País, e em linha com a do Moderfrota, o apetite do produtor rural pelo financiamento vai depender da manutenção das taxas e do comportamento dos juros internacionais. O agricultor repetir em 2024 o interesse que teve na linha neste ano está atrelado à continuidade dos juros pelo BNDES e da taxa de juros internacionais. Os juros americanos estão em 5,25% a 5,50% ao ano. Se caírem, pode haver tendência a um impulso a maior apetite. O principal fator para impulsionar as vendas e uso deste financiamento é uma taxa de juros mais convidativa, menor que a do Moderfrota. De forma geral, a Abimaq espera estabilidade nas vendas de máquinas e equipamentos agrícolas em 2024. A fim de aumentar a atratividade e o apetite pela linha, o Ministério da Agricultura solicitou ao BNDES a adoção de taxas de juros variáveis, com base na SOFR (taxa calculada pelo Federal Reserve e usada como referência para empréstimos interbancários e contratos em dólar).
Atualmente, a SOFR oscila em torno de 5,32% ao ano. A taxa de custo do BNDES é fixa em 1% e o spread do banco varejista em 2,5%. A média histórica da SOFR é de 1,5%, portanto a expectativa é que a SOFR caia para cerca de 2% em dois a três anos. Se a SOFR for variável dentro da taxa total, ela reduz o peso dos juros no longo prazo, defende Augustin, citando que são financiamentos de longo prazo. A Abimaq, observa, entretanto, que os produtores costumam ser avessos a taxas variáveis, em virtude do risco de volatilidade de condições variáveis. O agricultor geralmente não gosta de juro variável, porque pode subir, ao mesmo tempo que pode cair e há risco que o juro internacional suba lá na frente, segundo a Abimaq. Outros ajustes pedidos pelo Ministério da Agricultura são a extensão da linha dolarizada para a modalidade de custeio e o uso do adiantamento sobre o contrato de câmbio (ACC) indireto para comprovação da operação. Segundo o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, a linha dolarizada será ampliada para custeio, a juros menores e sem custo ao Tesouro.
O ministro também defendeu a possibilidade de comprovação indireta do ACC, para casos de produtores que não exportam diretamente e sim via trading, a fim de adiantar o crédito da exportação para esses produtores a juros reduzidos. São modernizações que estão sendo debatidas pela equipe técnica do Ministério da Agricultura, com o Banco Central e com o Ministério da Fazenda. O ACC não tem incidência de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Uma alternativa viável é a ampliação da linha para financiamento para adubação, produtos que são importados em dólar, com empréstimo de curto prazo para no futuro realizar uma extensão total para linhas de custeio com condições específicas. Outra reivindicação do Ministério é a inclusão de máquinas importadas que não possuem equivalentes no País, como modelos de colhedoras de algodão. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.