21/Nov/2023
A Argentina não tem de onde tirar dinheiro se não for do comércio exterior. Essa realidade poderá levar o recém-eleito presidente argentino, Javier Milei, a moderar seu discurso beligerante contra o Brasil e a China. A Argentina depende muito do Brasil e da China para suas operações de comércio exterior. Por outro lado, há uma tendência muito grande de Milei, como fez no Brasil o ex-presidente Jair Bolsonaro, de estreitar e fortalecer relações com os Estados Unidos. Esse fortalecimento se concretizaria na esteira do cumprimento da promessa feita por Milei na campanha de dolarizar a economia argentina, tarefa essa que, para os especialistas, não deverá ser fácil, já que o presidente eleito enfrentará forte resistência no Congresso e principalmente do peronismo, que mantém expressiva relação com as bases sindicais e movimentos sociais argentinos. A Associação Brasileira de Comércio Exterior do Brasil (AEB) aguarda para ver de fato o que Milei vai fazer. Até agora foram só discursos de campanha. Ele não tem de onde tirar dinheiro se não for do comércio exterior.
Para a Companhia Francesa de Seguro de Comércio Exterior (Coface), até mesmo na possibilidade de enfraquecimento do Mercosul houve alguma moderação ainda na campanha eleitoral. Sempre haverá a tendência de fortalecimento da relação argentina com os Estados Unidos, como ocorreu no Brasil com Bolsonaro. Em relação à possibilidade de um enfraquecimento da relação comercial entre Argentina e China, o principal motivo seria uma dolarização da economia argentina. Mas, não se sabe se Milei vai conseguir dolarizar a economia, mas sabe-se que será difícil ele manter esse discurso bélico contra a China e contra o Brasil. Ou Milei modera o discurso ou vai agudizar a crise. A tendência é de o novo governo abrir mais a economia argentina e enfraquecer mais a sua indústria. A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) espera que Milei adote uma política de atração de investimentos em infraestrutura relativa à capacidade de produção e armazenagem e em ferrovias, rodovias e portos.
Nesse caso, Milei tende a ser um liberal prático, não dogmático e fazer negócios com a China, que é estrategicamente interessada nesse tipo de investimentos e participações globais por conta de razões estratégicas. Além disso, o novo presidente da Argentina deve querer viabilizar a entrada de moeda estrangeira via mercado de capitais. Para tanto, a sinalização efetiva de medidas pró-mercado ajudará muito. É preciso tirar a Argentina da trajetória de crise sem fim, tomando medidas e sinalizando racionalidade econômica em negócios. Se Milei conseguir iniciar e manter um processo de mudança de expectativas sobre as possibilidades futuras do país, ele poderá obter espaço orçamentário para rever e ajustar políticas públicas e sociais. Não há milagre, mas um processo prolongado que aponte para uma trajetória virtuosa, prescinde de sinalizações concretas, críveis e viáveis, exportar e comprar.
Pela crise econômica e de confiança pela qual passa a Argentina, é muito difícil cravar um caminho de estabilidade para o país no curto prazo porque a parte mais difícil para Milei, mais até do que ter ganhado a eleição, é formar o governo, já que terá forte oposição no Congresso e dos movimentos sociais. Esse primeiro mês de formação do governo será muito importante. A Coface mantém o rating da Argentina em "D", a última antes da nota para países em guerra. Na avaliação da AEB, a despeito de o comércio exterior ser o único caminho para a Argentina conseguir renda, pela falta de recursos e crédito, os argentinos estão comprando apenas o estritamente necessário. Isso explica o país vizinho ter importado até agora apenas US$ 2 bilhões de soja do Brasil mesmo com a necessidade de adquirir mais do grão para honrar os compromissos de entregar soja vendida antes de uma colheita frustrada pela crise climática pela qual passou o país. Pela primeira vez na história a soja foi o principal produto importado do Brasil pela Argentina. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.