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12/Mai/2023

Acordo nuclear EUA-Coreia do Sul desagrada China

Falar ostensivamente em arsenal nuclear e ogivas atômicas é uma característica típica da Coreia do Norte, mas nada comum na Coreia do Sul. Por isso, causou estranheza o anúncio no dia 26 de abril, após um encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-yeol, de um novo acordo de cooperação militar, que foi chamado de Declaração de Washington. O governo norte-americano prometeu reforçar a segurança da Coreia do Sul, que se comprometeu a não desenvolver um arsenal nuclear próprio. Os dois presidentes concordaram em montar um grupo para decisões conjuntas em caso de ataque norte-coreano, mas elas não serão posicionadas no território aliado, como ocorria antes do fim da Guerra Fria. O pacto deixou claro os temores da Coreia do Sul com a vizinha Coreia do Norte. A Coreia do Norte está construindo armas nucleares cada vez mais sofisticadas que podem atingir cidades em diversos pontos dos Estados Unidos e qualquer ponto da Coreia do Sul.

Mas, é importante também para reforçar a presença e influência norte-americana na região do Indo-Pacífico, em meio à escalada de tensões com a China e à proximidade econômica entre China e Coreia do Sul. No mês passado, as Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram os maiores exercícios de guerra da história da região do Indo-Pacífico nas Filipinas. O aumento de temperatura no conflito entre China e Estados Unidos também subiu com o apoio norte-americano para Taiwan, território que a China considera como seu. Os Estados Unidos têm visto a relação da Coreia do Sul com a China crescer em termos econômicos nos últimos anos. Da perspectiva de interdependência econômica, o comércio sul-coreano é bem maior com a China do que com os Estados Unidos, aumentando a percepção dos norte-americanos de que os laços precisam ser estreitados. A iniciativa entra no guarda-chuva de outros movimentos similares dos Estados Unidos na região, como o fortalecimento do Diálogo de Segurança Quadrilateral ou Quad, formado por Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália, países que geograficamente são próximos da China.

Antes do encontro entre os dois países, o vazamento de diversos documentos da inteligência norte-americana sugeriu que os Estados Unidos podem ter espiado conversas de oficiais sul-coreanos sobre a possibilidade de venda de armas da Coreia do Sul para a Ucrânia, o que é pleiteado pelos Estados Unidos. A indústria armamentista da Coreia do Sul está em expansão. No ano passado, o país teve um aumento de 140% nas exportações, com destaque para um grande acordo com a Polônia no valor de US$ 12,4 bilhões. O governo da Coreia do Sul tem uma política de Estado de não fornecer armas a países em guerra, impossibilitando a venda direta de armamentos para Ucrânia, embora tenha enviado ajuda humanitária e aderido às sanções econômicas lideradas pelos Estados Unidos contra a Rússia. A Rússia já avisou à Coreia do Sul que caso opte por vender armas para a Ucrânia, a Rússia pode estreitar as relações com a Coreia do Norte.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), caso a Coreia do Sul opte por vender armas para a Ucrânia, dá um sinal significativo em direção ao Ocidente, o que levaria a uma insatisfação com a China e uma preocupação com a Rússia. Iria mexer com todos os atores internacionais envolvidos na Ásia. A Coreia do Sul já flertou com a ideia de desenvolver armas nucleares na década de 1970, quando teve um programa secreto. Mas, quando os Estados Unidos descobriram, foi dado um ultimato: a Coreia do Sul poderia continuar com seu programa, ou aceitar que os Estados Unidos defendessem o país, com toda a força de seu arsenal nuclear. A Coreia do Sul optou pelo apoio dos Estados Unidos. O acordo costurado entre Estados Unidos e Coreia do Sul prevê que pela primeira vez que o governo sul-coreano tenha um papel central no planejamento estratégico para o uso de armas nucleares em qualquer conflito com a Coreia do Norte. Em troca, a Coreia do Sul rejeitou qualquer esforço para a obtenção de seu próprio arsenal nuclear.

O governo norte-americano afirmou que enviará submarinos com mísseis balísticos nucleares para atracar na Coreia do Sul. Como parte do novo acordo, os dois países criarão um Grupo Consultivo Nuclear para coordenar as respostas militares à Coreia do Norte. Os Estados Unidos prometeram consultar os aliados sul-coreanos antes de uma possível retaliação contra a Coreia do Norte. Um ataque nuclear da Coreia do Norte contra os Estados Unidos e aliados é inaceitável e resultará no fim de qualquer regime que tomar esta atitude, afirmou Biden durante uma coletiva após o anúncio do acordo. Mesmo que o acordo tenha importância estratégica para os dois países, Biden deixou claro que o pacto costurado segue dando autoridade exclusiva dos Estados Unidos na decisão final de usar ou não armas nucleares. Os Estados Unidos retiraram as últimas armas nucleares da Coreia do Sul em 1991. De acordo com a FGV, os acordos têm uma relevância significativa porque permitem que a Coreia do Sul tenha uma garantia maior em relação a sua segurança.

O acordo mostra a preocupação dos Estados Unidos de efetivamente reconstruir relações com seus aliados na Ásia. O Japão pode querer buscar um acordo parecido com os Estados Unidos, visto que também tem preocupações com a sua segurança na região. A opinião pública da Coreia do Seul já vinha indicando que era necessário reforçar a segurança em caso de um ataque da Coreia do Norte. Segundo uma pesquisa do Chicago Council on Global Affairs, 71% dos sul-coreanos estão a favor de que o governo local desenvolva armas nucleares, enquanto 56% avaliam que os Estados Unidos devem implementar armas nucleares no território da Coreia do Sul. Entre essas duas opções, 67% do público afirmou que prefere um arsenal independente da Coreia do Sul, enquanto 9% preferem que armas nucleares norte-americanas sejam instaladas no país. A Coreia do Sul é signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que a proíbe de obter armas nucleares. Portanto, o compromisso de não construir suas próprias armas não é novo.

Mas, as nações podem se retirar do tratado apenas com uma notificação para a Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar da intenção da Coreia do Sul, especialistas que o país deve se manter dentro do guarda-chuva norte-americano neste momento. Não há perspectiva de a Coreia do Sul ter armas nucleares, isso geraria uma tensão muito grande na região e não seria um fator de estabilização ou de melhoria na questão de segurança nacional. A situação poderia até piorar. Para o Instituto de Estudos sobre a Coreia do Norte da Yonsei University, de Seul, o país asiático não deve ir atrás da obtenção de armas nucleares até o final do governo de Joe Biden nos Estados Unidos e o governo de Yoon Suk Yol na Coreia do Sul. Se Biden perder nas eleições presidenciais de 2024 e o ex-presidente Donald Trump ou um presidente dos Estados Unidos semelhante a Trump for eleito, o acordo pode retroceder para a estaca zero e a nova administração dos Estados Unidos, especialmente se estiver comprometida com a política externa America-First, que foi adotada por Trump em seu primeiro mandato, pode estar disposta a deixar a Coréia do Sul desenvolver armas nucleares.

Segundo a FGV, a Coreia do Sul não tinha interesse imediato no desenvolvimento nuclear, mas usou o discurso como barganha para obter mais garantias de segurança dos Estados Unidos. O tratado anunciado pelos Estados Unidos e Coreia do Sul ocorre em um momento crítico nas tensões da península coreana. Em março, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, ordenou o disparo de quatro mísseis balísticos intercontinentais após a realização de exercícios militares conjuntos entre Coreia do Sul e Estados Unidos, que foram consideradas as maiores manobras militares em cinco anos. A Coreia do Norte vem tentando aprimorar o seu arsenal nuclear e chegou a testar um novo drone submarino de ataque nuclear capaz de provocar um “tsunami radioativo em larga escala", segundo noticiou a agência estatal de notícias KCNA.

Segundo o Stimson Center, a Declaração de Washington reforça a retórica hostil dos Estados Unidos para Coreia do Norte. A Coreia do Norte olha para este acordo como mais uma justificativa para a obtenção de armas nucleares. No longo prazo, o pacto reduz qualquer tipo de negociação sobre redução de armas, muito menos a desnuclearização da península coreana. Apesar do crescimento militar, a Coreia do Norte segue sendo o país militar mais fraco no conflito, reduzindo qualquer possibilidade de um equilíbrio na região. Após o anúncio do acordo, a China afirmou que os Estados Unidos e a Coreia do Sul não devem provocar um confronto com a Coreia do Norte. Isso abala o regime de não proliferação nuclear e os interesses estratégicos de outros países. De acordo com o Stimson Center, a polarização entre Estados Unidos e China amplia o apoio militar e político que a Coreia do Norte deve receber da China e da Rússia.

A Coreia do Norte tem mais valor agora para China e Rússia, em uma batalha de vontades com os Estados Unidos e seus aliados. Portanto, enquanto os testes e exercícios implacáveis da Coreia do Norte agitarem a segurança na região, deve receber mais apoio do eixo composto por China e Rússia. Compartilhando temores de um ataque da Coreia do Norte, Japão e Coreia do Sul voltaram a estreitar os laços apesar de diferenças históricas por conta da ocupação japonesa do território coreano que durou de 1910 até 1945. Segundo estimativas, 150 mil coreanos foram forçados a trabalhar em fábricas e minas japonesas durante os anos do conflito. Em março, o primeiro-ministro do Japão e o presidente da Coreia do Sul se reuniram pela primeira vez em 12 anos. A viagem ocorreu após os dois países chegarem a um acordo para resolver o impasse da indenização de sul-coreanos submetidos a trabalhos forçados.

Além disso, o Japão suspendeu as restrições para a exportação de semicondutores para a Coreia do Sul. A relação entre os países deve se aproximar ainda mais, com compartilhamento de informações militares e exercícios conjuntos. Para o Stimson Center, as relações entre os dois países continuarão melhorando enquanto a Coreia do Norte continuar ativamente testando novos sistemas de armas. Importante salientar que não existe um apoio irrestrito para a aproximação de Japão e Coreia do Sul entre a opinião pública e a classe política dos países. Não há apoio generalizado para as medidas que o presidente da Coreia do Sul está adotando. Embora essa tendência deva continuar no atual governo, é improvável que seja sustentável durante uma transição política na Coreia do Sul. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.