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03/Mai/2023

Reforma Tributária: Brasil tenta corrigir distorções

Do pequeno empresário ao CEO de uma multinacional, do trabalhador de baixa renda informal ao assalariado da classe média com carteira assinada, todos brasileiros pagam, de alguma forma, o preço de viver num País em que o sistema tributário é não só pesado, mas também extremamente complexo, disfuncional e socialmente injusto. Para as empresas, a forma como os tributos são recolhidos no Brasil gera distorções produtivas com sua legislação anacrônica, que onera sistemas de produção mais eficientes, e guerra fiscal, que desvia as empresas de regiões onde elas poderiam ser mais produtivas. Mais do que isso, sua complexidade e burocracia levam a disputas com o Fisco que já passam de R$ 5 trilhões, principalmente em função de diferenças de interpretação sobre o que gera ou não crédito tributário, assim como demandam departamentos dedicados à administração de tributos que custam algo próximo a 1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para a sociedade, o sistema é considerado altamente regressivo, ou seja, pesa mais no bolso de quem é mais pobre, ao tratar como iguais famílias de baixa renda e consumidores de maior poder contributivo. Todos pagam o mesmo imposto quando compram um produto. A simplificação do sistema tributário é debatida há 35 anos. Porém, em todo esse período, o tema, que rende poucos dividendos eleitorais, não obteve força política para vencer a resistência, quando não da própria União, dos Estados e das atividades, sobretudo o setor de serviços, nas quais a fixação de uma alíquota única representa maior carga tributária. Uma nova tentativa de alterar o chamado "manicômio tributário", para usar uma expressão frequentemente empregada pelo setor produtivo, deve voltar a acontecer neste mês. Se tudo sair como o previsto, será apresentado no dia 16 de maio o relatório do grupo de trabalho responsável por construir, na Câmara, um texto de convergência entre as duas propostas de reforma tributária mais avançadas no Congresso: a PEC 45 e a PEC 110.

Depois disso, a meta é votar a matéria em dois turnos na Câmara até 15 de julho, com o envio da proposta para apreciação no Senado até outubro. Para quebrar resistências, a proposta que está sendo costurada prevê transição suave ao novo modelo, com compensações aos entes federativos que perderem arrecadação à medida que o recolhimento de tributos sobre o consumo gradualmente migrar, ao longo de 40 ou 52 anos, da origem ao destino. Numa lista ainda não fechada, mas que já prevê alimentos, educação, saúde e transporte coletivo e de cargas, também são prometidas alíquotas mais baixas a setores considerados críticos. Como forma de contornar conflitos de interesses entre União e entes federativos que, por mais de três décadas, impediram todas as tentativas de um imposto único no País, a reforma caminha a uma solução dual. Ou seja, haverá, se a proposta vingar, um imposto único federal, aglutinando IPI, PIS, Cofins, e outro subnacional, com a fusão dos impostos estadual (ICMS) e municipal (ISS).

Ao contrário das outras vezes em que se tentou avançar em mudanças no sistema, a reforma conta agora com o apoio dos governadores. Estados que, por restrições fiscais, não conseguem mais persistir na guerra tributária veem a reforma como o caminho para voltar a atrair investimentos. O princípio da tributação apenas no destino, proposta na reforma que dá fim à disputa de incentivos fiscais na origem, deixou de ser um tabu para os governadores de Estados produtores, incluindo São Paulo. O principal argumento usado na busca pelo difícil consenso, no entanto, é de que todo mundo, inclusive setores que se consideram prejudicados, ganha com o empurrão dado à atividade pela redução dos nós tributários. No esforço de convencimento, secretários do Ministério da Fazenda citam, em apresentações da proposta, estudos que estimam entre 12% e 20% o crescimento de PIB gerado apenas pela reforma em 15 anos. Esse impulso, estimado em pelo menos R$ 1,2 trilhão a valores de 2022, significa que empresas, trabalhadores e governos vão ganhar mais com a distribuição de um produto maior.

Parlamentares à frente da reforma procuram expressar a confiança de que "agora vai", uma vez que, de forma inédita, há um alinhamento entre governo federal, legislativo e Estados a favor da matéria. Mas, as preocupações com as mudanças de modelo manifestadas por setores de peso, entre eles o agronegócio, e a resistência das grandes cidades, São Paulo incluída, à extinção do imposto municipal sobre serviços, o ISS, sugerem um jogo ainda longe do fim. Segundo estimativa da consultoria Inteligov, a reforma tributária tem 55% de chances de aprovação na Câmara dos Deputados. O percentual indica que, se a proposta fosse levada hoje para votação no plenário, teria possibilidade média de receber o aval dos parlamentares. Ao levar em conta o período de janeiro a 10 de abril, último dado disponível sobre o tema, a tendência de aprovação da proposta é de alta. Era de 33% em 17 de janeiro, saltou para 58% em 31 de janeiro, teve leve queda posteriormente e atingiu o pico em 17 de março, de 72%.

Desde então, os números arrefeceram e caíram para 55% em abril. Os números levantados pela consultoria, no entanto, são dinâmicos e podem mudar conforme a tramitação do texto. A consultoria analisa que a queda no índice foi provocada pela falta de movimentações importantes na tramitação do texto. Há impasses do governo na construção da sua base e, agora vai ter a CPMI do 8 de janeiro. A percepção é de que o governo está com dificuldade de fazer essa pauta andar. A realização de audiências públicas sobre a proposta pode elevar o índice porque sinaliza andamento da PEC. Se tudo continuar como está, a probabilidade de aprovação vai cair ainda mais. Para esse número subir, precisa de algum sinal na tramitação do projeto de que as coisas estão andando. O levantamento da consultoria leva em conta a Proposta de Emenda Constitucional 45, de autoria do deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), que está em discussão avançada no Congresso.

O texto estabelece a criação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) único, que aglutinaria os tributos federais, estaduais e municipais. A proposta deve ser anexada e tramitar conjuntamente com a PEC 110, de autoria de Bernardo Appy, atual secretário extraordinário para reforma tributária do Ministério da Fazenda. Esse texto estabelece a criação do IVA dual: um para tributos federais e outro que unificaria os tributos de Estados e municípios. Um grupo de trabalho criado pela Câmara dos Deputados está reunindo contribuições do governo federal, parlamentares, Estados e municípios para construção do texto final da proposta. Segundo o coordenador do colegiado, Reginaldo Lopes (PT/MG), o relatório da matéria será apresentado na terceira semana de maio e pode seguir direto para discussão no plenário da Câmara. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.