29/Mar/2023
Alguns dos maiores poluidores da Europa registram lucros inesperados com a venda de créditos de carbono. Os lucros são uma consequência não planejada de generosos subsídios que são a base do mercado de carbono da região. Uma empresa espanhola de petróleo e gás, uma produtora de alumínio da Itália e duas empresas industriais finlandesas venderam juntas quase 120 milhões de euros, o equivalente a mais de US$ 129 milhões em créditos no ano passado. Uma onda de vendas adicionais em valor que pode chegar a dezenas de milhões de euros deve ser divulgada nos próximos meses. O Sistema de Comércio de Emissões da Europa é considerado o mais antigo e maior entre os mais de 60 mercados de carbono e medidas tributárias em todo o mundo que buscam definir um preço para as emissões. Mais de 9,2 bilhões de créditos mudaram de mãos no ano passado na Europa, gerando o volume recorde de 751 bilhões de euros em transações, segundo a Refinitiv.
Empresas como produtoras de energia, indústrias e companhias aéreas domésticas precisam comprar créditos para cobrir parte do carbono que emitem. Ao encarecer as emissões, o mercado de carbono dá às empresas um incentivo para reduzi-las. Políticas governamentais generosas minam esses incentivos, ao criar lucros inesperados. De acordo com um relatório de novembro do World Wildlife Fund for Nature, os grandes poluidores obtiveram quase 100 bilhões de euros em créditos de carbono gratuitos ou baratos na última década. Os créditos foram programados para ajudar empresas como produtoras de cimento e metais a se adaptarem ao novo mercado. Mas, o montante foi muito maior do que o necessário. Cerca de 260 empresas receberam quase 702 milhões de créditos excedentes de 2005 a 2021, de acordo com dados compilados Joint Vienna Institute. Muitos desses créditos se transformaram em lucros inesperados. Eles valiam em média 14 euros por tonelada de 2013 a 2021, de acordo com o relatório do WWF.
Então veio a invasão russa à Ucrânia. As concessionárias de energia passaram a queimar mais carvão, sendo obrigadas a comprar mais créditos para cobrir o aumento das emissões. Os preços subiram para quase 100 euros por tonelada. Algumas empresas industriais, por sua vez, cortaram a produção em meio à queda na demanda, ficando com créditos de que não precisavam. As empresas que possuíam créditos baratos começaram a lucrar. Estão vendendo mais agressivamente, disse a Refinitiv. A gigante finlandesa de papel e embalagens Stora Enso vendeu 59 milhões de euros em créditos no ano passado. A empresa recebeu 160 milhões de euros em créditos no ano passado. Com receita de 11,7 bilhões de euros, a Stora Enso afirma ser uma das maiores proprietárias de florestas privadas do mundo. A empresa cortou as emissões em 27% desde 2019 e os preços mais altos da energia compensaram os ganhos com a venda de créditos de carbono.
A produtora finlandesa de petróleo e gás Neste vendeu 550 mil créditos, gerando uma receita estimada de 44,1 milhões de euros com base no preço médio dos créditos em 2022. A empresa, que já tinha um estoque de créditos, recebeu 2 milhões de créditos de carbono no ano passado. A Neste pretende atingir a neutralidade de carbono até 2035 e investe em projetos de energia renovável e eficiência energética para reduzir as emissões. Poluir custará mais no futuro, como também haverá menos alocação gratuita disponível. Para algumas empresas, as vendas do ano passado representaram uma pequena parte dos benefícios obtidos do mercado de carbono. A empresa de energia espanhola Repsol ganhou menos de 5 milhões de euros com a venda de créditos. Esse número representa menos do que o papel da empresa no mercado de carbono da Europa. A Repsol é uma das maiores emissoras de carbono da Europa e uma das maiores receptoras de créditos de carbono gratuitos e baratos.
A empresa possui 611 milhões de euros em licenças que mantém como estoques comerciais para aproveitar as oportunidades do mercado. A maioria das empresas não divulga suas vendas de créditos de carbono. A União Europeia só publica as informações três anos após a ocorrência das transações e não há uma lista abrangente dos dados atuais. O The Wall Street Journal identificou lucros inesperados com créditos de carbono ao analisar as demonstrações financeiras divulgadas pelas empresas. O Journal cruzou esses dados com nomes que aparecem em uma lista de mais de 200 empresas que divulgaram de forma espontânea o recebimento de créditos gratuitos em relatórios enviados à organização sem fins lucrativos para transparência corporativa CDP. O Sistema de Comércio de Emissões da Europa regulamenta mais de 9 mil usinas de energia, fábricas e companhias aéreas, cobrindo cerca de 36% de todas as emissões da União Europeia.
Os créditos gratuitos foram criados para impedir que as empresas industriais transferissem fábricas para países com políticas climáticas menos rígidas. Mas, os ativistas argumentam que os créditos de carbono subsidiados prejudicam a eficácia dos mercados porque as empresas que os recebem não são obrigadas a reduzir as emissões. De 2013 a 2021, as emissões de empresas industriais que recebem créditos gratuitos ou subsidiados caíram menos de 12%, como mostram dados da Comissão da União Europeia. As emissões dos produtores de energia, que pagam o preço total pelos créditos, caíram 41%. A União Europeia estabeleceu recentemente uma política climática mais ambiciosa que poderá incluir a eliminação gradual dos créditos gratuitos. Além de subsidiar créditos, alguns países membros da União Europeia também subsidiam custos de energia para empresas industriais.
Quase 2,4 bilhões de euros foram distribuídos a empresas regulamentadas em 2021, 1 bilhão de euros a mais do que em 2020, segundo dados da Comissão Europeia. A produtora romena de alumínio Alro vendeu mais de 10 milhões de euros em créditos, além de receber 163 milhões de euros em subsídios do governo. O alumínio é um dos metais mais intensivos em energia, e os preços da eletricidade dispararam em 2022. Com isso, o lucro líquido da empresa subiu para quase 84 milhões de euros no ano passado, acima dos mais de 5 milhões de euros em 2021. Apesar do subsídio, a empresa fechou fornos e encerrou uma fábrica no leste da Romênia para lidar com o aumento dos custos. O objetivo da comissão é não perder a produção total de alumínio da Europa e é por isso que existe esse subsídio, afirmou a Alro. A ideia é fornecer um recurso para que a empresa mantenha o mesmo nível de produção. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.