20/Mar/2023
Os Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagros) estavam “no embalo” desde o início da regulamentação e listagem na B3, em 2021, mas não escaparam da cautela com as incertezas locais e com o crédito privado. No entanto, enquanto a captação líquida emenda dois meses negativos, o patrimônio líquido cresce a passos lentos, o que especialistas dizem refletir os fundamentos positivos do setor. Em fevereiro, os Fiagros registraram saída líquida de R$ 490 mil, segundo mês negativo após o resgate líquido de R$ 12,3 milhões em janeiro, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O patrimônio líquido é de R$ 10,5 bilhões, com 46 fundos e 255 mil contas nesse tipo de investimento.
A Valora Investimentos avalia que esse reposicionamento de início de ano se deu devido ao nervosismo em relação ao mercado de crédito privado, com crises em empresas como Americanas e Light. Esses eventos grandes e pontuais que aconteceram podem afetar num primeiro momento a confiança do investidor, mas quando a situação se normalizar ele vai ver que o agro é um “porto seguro”. É mais um retardamento do crescimento que uma reversão de tendência. A mudança de governo também pode deixar investidores em compasso de espera. A Valora Investimentos tem otimismo com o setor agro devido aos fundamentos, e traz como exemplos a demanda global aquecida, com a reabertura da China, grande importadora dos produtos agro do Brasil, e a resiliência do agro em relação à margem, com lucro de produtores nos últimos anos.
A saída de R$ 490 mil dos Fiagros em fevereiro é avaliada como um valor ínfimo ao se considerar o PL da indústria, que segue expandindo conforme investidores estão “aprendendo, vendo e gostando” dos produtos. Esse interesse do investidor pode ser observado nos dados divulgados esta semana pela B3: em 2022, o número de investidores em produtos ligados ao agronegócio, que englobam, além dos Fiagros, as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), chegou a 1,6 milhão, ante 834 mil em 2021 (+95%). Embora a maior parcela desses investidores (73%) esteja aplicando apenas em LCAs, o estudo da B3 destaca o avanço das alocações em Fiagro, com mais de 100 mil novos investidores entre dezembro de 2021 e dezembro de 2022.
Um dos grandes méritos do Fiagro é democratizar o acesso do investidor. O cenário do agro estava se tornando mais desejado pelo investidor, mas no passado era mais difícil acessá-lo. Para uma pessoa física entrar na emissão primária de um CRA precisaria ser no mínimo um investidor qualificado. Mas, agora, com R$ 10 mil ele compra uma cota e corre o risco pulverizado de vários CRAs. Ressalta-se o benefício para os emissores: novos clientes chegando, um investidor menor que deixa a base menos concentrada em poucos grandes bolsos. O Grupo Suno também observa que o investidor está procurando alternativas para diversificar sua carteira com o agronegócio. Apesar de o agro representar quase 30% do PIB nacional, as pessoas têm de 5% a 7% da carteira em agro, e querem aumentar. Isso é uma oportunidade.
Mas, além da dificuldade de acesso aos CRAs, há poucas opções de empresas na Bolsa brasileira. A alternativa boa é no mercado de capitais, e é o Fiagro. A queda na captação da indústria foi um movimento normal de mercado, dado que o PL e o número de cotistas seguem em alta, não uma consequência da recente turbulência no mercado de crédito. É um cenário de crescimento contratado, não o Fiagro deverá se tornar, em poucos anos, a maior fonte de financiamento do agronegócio brasileiro. Muito disso se deve à “avenida pavimentada pelos FIIs”, os fundos de investimento imobiliário. O papel educacional dos FIIs foi fundamental. Agora o investidor vê que tem renda mensal (o dividendo) e o ticker terminando em “11” e já se interessa.
Desde que foram criados, os Fiagros operam com uma regulamentação temporária aos moldes dos Fundos de Investimento Imobiliário (FII). Mas, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deve concluir a regulamentação específica do setor ainda este ano. O Grupo Suno celebra a decisão da CVM de regulamentar os Fiagros agilmente. A expectativa, agora, é por uma eventual permissão para todos os ativos e lastros num único veículo, o que vai aumentar as possibilidades de atuação das gestoras. Já a Valora Investimentos, não espera grandes surpresas, mas sim uma adaptação prática depois de dois anos do produto ‘rodando’, algo que seja mais customizado em relação ao perfil das garantias e ciclos de produção do agro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.