13/Mar/2023
A expectativa de queda da taxa básica de juros (Selic) mais cedo do que o esperado já figura nos cenários de alguns economistas. Essa possibilidade decorre do risco de piora do mercado de crédito com a crise da Americanas, em meio à desaceleração já contratada para a atividade econômica. A ameaça ao crédito poderia ser o aceno “técnico” do Banco Central, e não político, ao governo de que o corte de juros não está tão distante. A possibilidade não é majoritária pela incerteza em torno da âncora fiscal, ainda mais em meio à chance de mudança das metas de inflação e à desancoragem das expectativas. Nos últimos dias, o Banco Alfa e o Banco Fibra anteciparam as expectativas de início do ciclo de cortes, citando o risco de piora do mercado de crédito. Saindo de um cenário de juros estáveis em 13,75% até dezembro, o Fibra diminuiu a sua projeção de Selic no fim de 2023 para 12,5%, incorporando à estimativa cinco cortes de 0,25% a partir de junho.
A mudança da projeção leva em conta o aperto das condições financeiras do País, que pode ser amplificado por problemas de crédito em algumas empresas varejistas. Isso significa um impulso negativo do crédito em um momento no qual a atividade já desacelera naturalmente, devido ao aperto monetário conduzido pelo Banco Central. Segundo o banco Fibra Ágila Cunha, o contexto justifica maior atenção do Banco Central para a intensidade da desaceleração da atividade econômica que está sendo contratada neste momento e, certamente, irá desacelerar ainda mais a demanda e a inflação de preços livres. O cenário básico do banco indica desaceleração do crescimento do PIB a 1,0% neste ano, de 2,9% em 2022. No entanto, o mais provável é que a nova proposta de arcabouço fiscal seja menos dura do que o teto de gastos. Nesse caso, a tendência é de que o mercado precifique incerteza no cenário, de forma a manter a curva de juros futuros sob pressão.
Ao mesmo tempo, a desancoragem das expectativas impedirá a convergência da inflação a 3% no médio prazo. O mercado de juros deve continuar sendo o principal termômetro de risco macroeconômico, e o spread (a diferença em relação ao valor original) entre os vértices curtos e longos deve continuar elevado, limitando o efeito da queda da taxa básica de juros. O Banco Alfa antecipou a projeção de início do ciclo de cortes de setembro para junho, devido à piora dos dados de crédito. Esse quadro, combinado à reoneração de combustíveis e à apresentação de um arcabouço fiscal crível, pode levar o Banco Central a sinalizar que a redução dos juros está próxima já na próxima reunião do Copom, no dia 22 de março. Parece que o caminho do impacto da política monetária sobre o mercado de crédito está bem encaminhado, seja pelo canal tradicional, seja por uma ‘ajudinha extra’ do caso Americanas.
Já se observa um aumento da inadimplência e do spread no crédito para pessoas físicas, e a tendência é de piora também para as empresas. Mesmo antecipando um início mais rápido do ciclo de cortes, o ritmo da diminuição deve ser menor, de 0,25% por reunião, ante o 0,5% esperado anteriormente. O Banco Alfa aumentou a projeção de Selic no fim de 2023 de 12,25% para 12,5%, mas nota que o novo cenário ainda implica juros médios menores no ano, de 13,10%, ante 13,50% na estimativa anterior. Outros analistas consideram baixa a chance de antecipação dos cortes da Selic. Para a BlueLine Asset, o evento Americanas potencializa marginalmente a desaceleração do ritmo de expansão de crédito, mas mão se observa um evento de crédito que crie um problema sistêmico. Não dá para achar que, se não cortar os juros, a economia vai implodir. Nesse ambiente, faria mais sentido adotar políticas macroprudenciais, que ataquem o problema microeconômico na margem. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.