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29/Set/2021

Dólar em alta com cena externa e temores fiscais

A combinação de fortalecimento global da moeda norte-americana, em dia marcado por forte correção dos ativos de risco no exterior e a alta das taxas dos Treasuries, com temores de medidas populistas na seara fiscal doméstica castigou o Real na sessão desta terça-feira (28/09). Em alta desde o início dos negócios, o dólar ganhou ainda mais força ao longo da tarde, em sintonia com o aprofundamento das perdas do Ibovespa. No pior momento, a moeda norte-americana chegou a tocar casa de R$ 5,45, ao registrar máxima a R$ 5,45 (+1,34%). A febre compradora arrefeceu na reta final dos negócios, mas, mesmo assim, o dólar ainda encerrou a sessão em alta firme, de 0,85%, cotado a R$ 5,42, o maior valor de fechamento desde o dia 4 de maio deste ano (R$ 5,43). Foi o quinto pregão seguido de fortalecimento do dólar, que já acumula valorização de 1,51% na semana e de 4,88% em setembro. Nas mesas de operação, já se especula em torno da possibilidade de que o Banco Central possa agir de forma mais incisiva para conter a depreciação do Real.

Está programado para esta quarta-feira (28/09) o segundo leilão extra de swap cambial, da ordem de US$ 700 milhões, motivado pelo overhedge dos bancos. Segundo a corretora Correparti, o Banco Central pode aumentar essa ração de swap. O mercado não ficou satisfeito com a explicação de que a oferta era para o overhedge. A grande preocupação é o processo inflacionário, que piora muito com a alta do dólar. Há problemas fiscais domésticos e essa saída de investidores externos dos mercados de risco, com a T-note subindo na espera de redução de estímulos monetários nos Estados Unidos. Se o Banco Central não se posicionar de forma mais firme, o dólar pode superar R$ 5,50 ainda nesta semana. O mercado cambial também ficou atento à ata do encontro do Copom na semana passada, quando a Selic foi elevada em 1%, para 6,25%. No dia do anúncio, o Banco Central alertou para os problemas fiscais, que criam uma assimetria no balanço de riscos para a inflação.

No que parece uma referência velada à eventual extensão do auxílio emergencial, o Banco Central afirma que novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do País. O Banco Central reafirmou a intenção de promover outra elevação da Selic em 1%, mas revelou que houve debate sobre custos e benefícios de acelerar o ritmo, o que abriu espaço para a leitura de que a ata foi mais dura que o comunicado e há, chance de que o Copom possa acelerar o passo. Há possibilidade de a Selic ultrapassar 9% e até atingir novamente os dois dígitos. A JF Trust afirma que não se vislumbra reversão do movimento de alta do dólar, enquanto o Banco Central seguir a atual estratégia gradualista de aperto monetário. O contágio externo, a deterioração inflacionária e a situação fiscal neutralizam os efeitos da colocação de swaps cambais. Os temores de que o governo Jair Bolsonaro embarque em uma onda de medidas "populistas" cresceu em meio aos debates em torno da prorrogação do auxílio emergencial por aprovação de crédito suplementar no Congresso (fora do teto de gastos).

Seria um atalho para aumentar os benefícios sociais sem depender exclusivamente do Auxílio Brasil, cuja fonte de financiamento está atrelada à aprovação da PEC dos Precatórios e da reforma do Imposto de Renda, que se arrasta no Senado. As investidas do presidente da Câmara, Arthur Lira, contra a alta dos preços dos combustíveis, justamente no dia em que a Petrobras reajustou o valor do óleo diesel, também fazem soar os alarmes do "populismo". Lira, ao lado de Bolsonaro, jogou a responsabilidade pelo preço dos combustíveis no colo dos governadores, alinhando-se ao discurso do presidente. Lira acrescentou que o Congresso vai debater um projeto para fixar valor do ICMS. À crescente deterioração do quadro interno se soma um ambiente externo cada vez mais desafiador. A inflação acelera no mundo em meio a uma crise energética e há sinais de perda de fôlego da atividade justamente no momento em que os bancos centrais dos países desenvolvidos dão sinais de “tirar o pé do acelerador”. Declarações de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) mostram que o início do "tapering" deve vir em novembro.

Crescem as apostas em alta dos juros nos Estados Unidos no segundo semestre de 2022, o que dá fôlego às taxas dos Treasuries e ao dólar. O yield da T-note de 10 anos superou hoje o teto psicológico de 1,5%. Há também a situação em torno da elevação do teto de gastos nos Estados Unidos, em meio a alertas de Janet Yellen, secretária do Tesouro dos Estados Unidos, dos efeitos de paralisação parcial do governo (shutdown) e de um eventual default da dívida. A ala 'hawkish' ganha terreno no Federal Reserve, e a inflação pode permanecer elevada por mais tempo do que se imaginava, a tal ponto que se vislumbre um aumento mínimo de duas altas de 0,25% do juro no segundo semestre de 2022. Não bastasse o enxugamento da liquidez global com o tapering, os ativos emergentes, como o Real, sofrem com o risco de desaceleração da China, às voltas com os desdobramentos do caso Evergrande sobre o setor imobiliário e cortes de energia, por causa da redução de estoques de carvão. Um pouso forçado da economia chinesa é má notícia para os preços das commodities e, por tabela, para a moeda brasileira. Fonte: Agência Estado. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.